terça-feira, 10 de junho de 2008

LÚCIA E OS PEIXES

O PEIXE-PESCADOR

O peixe-pescador
parece pedra
parece rocha.

Está sempre parado,
com os olhos arregalados.

O peixe-pescador não nega a natureza.
Abre a boca com esperteza,
cheio de malícia, tem até sua própria isca.


PEIXINHOS

Eu falo
danço
subo, torço
retorço.

Ébrio de
cor
em cor
na cor
sou sempre outro.

Vermelho-caju
azul-mirim
amarelo-capim
jasmim
assim
nos teus jardins
de ninhos
olhinhos
diversos peixinhos.


PEIXE-VOADOR

Da água verde,
um peixe reluzente salta e ganha o céu.


LÚCIA SANTÓRI-CARNEIRO é professora e poeta. Poemas extraídos do livro As voltas do tempo ( Salvador: Fundação Pedro Calmon, 2008)

sábado, 31 de maio de 2008

CENA I

Ante as asas depostas
o mar

as mesmas cores
as mesmas cores, apagadas,
víceras expostas
ao tempo.

As páginas abertas, ao vento...

as pálidas entranhas.
As estranhas voltas emaranhadas
de teus olhos inertes.

Temendo, a eminente chuva que cai.


GEORGIO RIOS, Jacuipense, co-editor do blog. Tem publicado em parceria com Thiago Lins e Paulo André, o livro "Só Sobreviventes"Tulle, 2008.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Dois Poemas INÉDITOS De SANDRO ORNELLAS

SEM NOME

a mãe comia com as mãos
o pai comia com os olhos
o irmão comia com os pés

a anoréxica não comia
& o filho come pelas beiradas

ela come como um crime
que comete ao sabor de
descaso & culpa & fome

de noite se deita & relembra
a história que a consome

tem o gosto da sua própria carne
& do seu próprio sangue no abdome

é entre os dez dedos doídos &
os muitos dentes roídos que vive
o dissabor de uma história sem nome



ÁLBUM

para Yara Camillo

§
cidades são ante-salas das coisas vividas
§
parques são cinemas em 180 graus na cabeça
§
estradas são sinais de fumaça para os pés
§
panelas são caixas que registram a ascendência
§
aviões são espirais intermináveis do passado
§
espelhos são maçãs da árvore do conhecimento
§
ruas são cordas em que esticamos o céu
§
postes são peças de um jogo de tabuleiro
§
praias são formigueiros nos cinco sentidos
§
óculos são jardins que escondem vida selvagem
§
pontos-de-ônibus são histórias de pescador
§
quartos são xícaras à beira da mesa
§
cabelos são garrafas vazias depois da festa
§
escolas são estantes cheias de pardais
§
discos são máquinas de voar que são discos
§
amigos são outros que nos levam a (ser) outros
§
casas são sapatos apertando pés suspensos
§
livros são bichos que criamos para nos matar
§
peles são vulcões que nascem ao rés do corpo
§
lábios são gestos de nossas mãos em flor
§
barbas são espinhos cultivados com ternura
§
mortos são pêlos brancos à mostra no nariz
§
escritos são escritos são escritos são escritos



Sandro Ornellas (1971) nasceu em Brasília-DF e mora em Salvador-BA. Publicou os livros de poemas SIMULAÇÕES (1998, Salvador, Fundação Casa> de Jorge Amado, Prêmio FCJA/COPENE para autores inéditos) e TRABALHOS DO CORPO (2007, Rio de Janeiro, Letra Capital). Também é professor de literatura na UFBA.

sábado, 10 de maio de 2008

TRÊS MINI-CONTOS DE WILSON GORJ

FALSOS

Do Paraguai trouxe um uísque, um relógio e uma loira.
O uísque revelou-se intragável. O relógio, quando não adiantava, atrasava. E os cabelos da loira, aos poucos, escureceram.
Um dia, ela prestou exame na USP. Passou em primeiro lugar.


CONFISSURA


Todas as tardes, ela ia à igreja se confessar.
Quando esgotou seu repertório de faltas e delitos, fez ao padre uma confissão um tanto quanto indecorosa.
A partir daí, na sacristia, seu estoque de pecados era constantemente renovado.


REFLEXO TARDIO

Tendo dobrado a esquina, o caixeiro-viajante topou com uma mulher, cuja reação não pode compreender. Ora, ela simplesmente saiu correndo, cheia de espanto.
Verdade que não era bonito. Mas, por mais feio que fosse, sua feiúra não era tanta a ponto de espantar uma mulher como se fosse uma barata.
“Talvez eu esteja com remelas nos olhos”, ponderava Gregor Samsa, enquanto vasculhava a sua maleta à procura de um espelho.



WILSON GORJ nasceu em 1977, em Aparecida, SP. Mais de e sobre WG em: omuroeoutraspgs.blogspot.com

terça-feira, 6 de maio de 2008

Poema pra sentir dor

No fim do mundo nasceu um menino
que come pêras como quem chupa manga;

seus pés, seus dentes e seu dorso
são só poesia...
até as costelas
que agora lhe perfuram os rins
teimam em recitar versos.

Enquanto isso,
sorrio no espelho
e tenho pena da pobre criatura.

Pra que tantos dedos?


EDSON OLIVEIRA DA SILVA reside em Santo Estevão - BA. Cumpre mestrado em literatura e diversidade cultural pela UEFS.

sábado, 3 de maio de 2008

DO RAPTO

..."Augusta, a infanta, por ali quedava feito tantas outras de sua idade, a sonhar com belos e bons partidos, jovens e raros cavaleiros daquela Europa de brios moribundos, para que, por um desses pudesse ser desposada. Em muito Augusta se destacava; em beldade, cortesia e doçura das demais infantas citadinas; que com ela vez por outra se ajuntavam e com as aias confidentes a bem de confabular seus supostos e fantásticos esponsais ou encontros pelas brenhas trasmontanas, com alguns nobres ou não, que por ali errassem e se encantassem por elas.
Augusta encerrava em si tudo isso; a tenra fase dos suspiros libidinosos juvenis, o ideal do matrimônio perfeito. E como tantas outras de sua idade ao longo de incontáveis séculos, sonhava, tanto quanto, com aquele ato que definisse o todo servir do cavaleiro para com a sua escolhida, a saber: o rapto. Porque a mulher, do alto da indomabilidade de sua alma, espera as mais cabais e tácitas provas de amor por quanto possa se assegurar da querência do cavaleiro por ela. Todas, um dia, sob pena de se enfeiarem no coração, precisam ser raptadas. Este ato aparentemente bárbaro e covarde alimenta o amor próprio do indivíduo-mulher. Por estas ora descritas, vos afirmo, irmãos homens que se aprazerem de ser guiados por estas epístolas; não hesiteis em raptá-las. Por amor vós podeis cometer as mais transgressoras atitudes. "...
(Excerto da epístola XXVIII do romance EPÍSTOLAS AO TEMPO, que Dênisson Padilha Filho já prepara para lançar).


DÊNISSON PADILHA FILHO (1971) é escritor, poeta, contista e roteirista. Autor dos livros Gavihomem (Art Contemp Editora, 1998), Aboios Celestes (Selo Bahia, Funceb, 1999) e Carmina e os Vaqueiros do Pequi (Santa Luzia Editora, 2002). Co-autor do roteiro do curta-metragem Na Terra do Sol (MINC, 2005), dirigido pelo cineasta Lula Oliveira. Também escreveu os ainda inéditos Epístolas ao Tempo (romance), Loquazes Gostamentos (poemas), Calumbi (curta-metragem/cinema) e O Jokerman sentado na pedra fria (curta-metragem/vídeo).

terça-feira, 29 de abril de 2008

[sem título]

"Parece-me que sempre serei feliz
no lugar onde não estou" (Charles Baudelaire)



depois de tudo, concluo que
um dia preciso me trancar
em casa e não ver mais ninguém:
seis anos de reclusão, obrigada

então uso a rede como remédio
e me esqueço, entregue
à indiferenciação entre as coisas:
diluída e inerte na massa física do mundo

saio e, pela janela do carro, olho
e me vejo refletida no espelho:
estarei para sempre limitada
ao território do corpo em movimento


KATHERINE FUNKE é jornalista e escritora. Mantém o blog notas mínimas(notasminimas.blogspot.com)

sábado, 26 de abril de 2008

III. DE 100 Fundamentos

O sol cansado se despia no horizonte e o Mestre Zen tinha visitas: um jovem militar vindo de um país distante. Enquanto moço mirava a alva face anciã em busca de respostas, o velho Mestre Zen já preparava o chá de meditação seguido de uma lição de moral silenciadora.
Dos campos de arroz no fundo do monastério veio a resposta que o soldado procurava, um discípulo encontrou um fuzil na plantação. O fardado deu graças ao menino e em retribuição jogou um cogumelo nuclear em sua careca.

RICARDO THADEU,Natural de Riachão do Jacuipe-Ba edita o blog www.ricardothadeu.blogspot.com

terça-feira, 22 de abril de 2008

DOIS POEMAS DE ELIESER CESAR

CINAMOMO

Na encruzilhada da vida,
Já não sei que caminho tomo;

se sou velho, menino ou gnomo;
se, entro num bar, peço uma cachaça e tomo.

Pegarei o Dom Quixote para ler o segundo tomo?

Mas, sei – ò, bem sei, que triste tombo!

Não há de chorar por mim um cinamomo.



PELOURINHO

Não julgo cor,
nem escolho tribo
(toda cisão me atrapalha).

Não tenho Deus,
nem o Diabo
que me valha.

Não sou (e isto é o bastante),
proprietário da casa-grande,
nem inquilino da senzala.


ELIESER CESAR (1960) é natural de Euclides da Cunha – BA. É poeta, ficcionista, jornalista e professor universitário. Tem publicado O Azar do Goleiro (novela, 1989), O escolhido das sombras (contos, 1995), Os Cadernos de Fernando Infante (poemas, 1997) e A Garota do Outdoor (contos, 2006). Integra a antologia A Poesia Baiana no século XX, organizada por Assis Brasil em 1999.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um pequeno conto

Lembranças


Há dias em que fatos acontecem que parecem já terem acontecido. Dias que seguem cotidianamente em que você sabe o que tem que fazer como pegar um resultado de seleção para professor e você vê este fato como uma repetição de algo que já aconteceu. Estranha coincidência que você esquece no resto do dia. Outro dia você vê alguém e pensa já tê-lo encontrado nas mesmas circunstâncias. E você nunca o viu. Numa manhã você acorda e pensa já ter acordado nesta mesma manhã: o sol, o dia, os dentes, a creme dental são os mesmos. Você se pergunta se já vivera a sua morte? Você não sabe. Outro dia qualquer você vai à escola, as aulas o esperam. Caminha na mesma rua escura, dois homens acompanham-no. E você sabe o que vai acontecer.

Carlos Borges (1982) é escritor. Mora em São Gonçalo. Tem publicado o livro de contos "O disco".