quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

UM POEMA DE KÁTIA BORGES

O PEQUENO HITLER

A verdade é uma só:
todo mundo traz o menino de Branau
confinado dentro de si
em um bunker imaginário.
E todo sonho que temos,
seja entrar para a academia de artes,
ou possuir a espada de Longino,
é o marido de Eva Braun,
o arquiteto do caos,
que queima em nosso peito.
Pois também ele sonhou
na abadia de Lambach,
servir a Deus e ser bom.
E todo sonho que temos,
seja planejar uma cidade
ou comandar um exército,
é o dono do cão Blondi,
o filho de Klara e Alois,
que ruge dentro de nós.
Pois ele também sonhou
certa tarde no Museu de Hofburg
ter a lâmina da vida nas mãos.
E todo sonho que temos,
seja eternizar-se na memória
ou liderar uma nação,
é o plagiador de Blavatsky,
o falsificador de Nietzsche,
o criador de Treblinka
e de Auschwitz-Birkenau,
que grita dentro de nós.


KÁTIA BORGES (1968) é jornalista, poeta e contista. Tem publicado DE VOLTA À CAIXA DE ABELHAS(poemas, 2002). Participou das coletâneas SETE CANTARES DE AMIGOS (2003) e CONCERTO LÍRICO A QUINZE VOZES (2004). Tem poemas e contos publicados na revista Iararana (números 1 e 5). Mais textos da autora no endereço www.mmeka.blogspot.com.

10 comentários:

GUSTAVO RIOS disse...

primeiro contato com a Kátia. bom, grandioso, sem medo de mexer em vespeiro. afinal, quem nunca sonhou mesmo em "ter a lâmina da vida nas mãos." ainda que cheio de supostas boas intenções? muito bom.

Carlos Barbosa disse...

Grande poema, grande poeta. Abr. Carlos Barbosa

ângela vilma disse...

É sempre muito bom ler Kátia Borges: ela fala por todos nós - nós que vivemos e tentamos lidar com a palavra. Parabéns, Kátia, esse poema é um grande presente de Natal, assim como aquele que você escreveu no Contramão.

Lima Trindade disse...

Forte e terrível o poema! Parabéns, Kátia. Você viu ao filme A Queda? Muito interessante a perspectiva. Temos de matar o pequeno ditador existente em nós, risos...

Renata Belmonte disse...

Grande, Kátia!
Beijos,
Renata

anjobaldio disse...

A Kátia Borges é uma poeta que não tem medo de se perder no caos delirante do mundo contemporâneo. Poema comovente, parabéns.

Kátia Borges disse...

Oi, gente, agradeço o espaço e os elogios. E faço uma correção. O nome da mulher de Hitler era Eva Braun, e não Brau, como consta no poema. Deve ter havido um erro de digitação no texto que enviei. Bjs a todos.

Álvaro Andrade disse...

Nossa, muito bom mesmo.

É forte como foi Hitler... mesmo que sua fraqueza tenha sido a perdição, todas elas.

Parabéns.

SANDRO ORNELLAS disse...

ffiiiuuuu!!!! muito bom!

Mayrant Gallo disse...

Um poema de verdade... E de verdades. Meu apreço para com a poesia de K. Borges é antigo e completo.