sexta-feira, 12 de outubro de 2007

POUCAS E BOAS...Com...

LIMA TRINDADE


1-Como você vê o desenrolar da literatura aqui na Bahia?


Vejo sob duas perspectivas distintas, a de quem produz a literatura mais especificamente, ou seja, aqueles que escrevem, e a dos agentes que estão ligados a ela indiretamente, os livreiros, professores, editores, jornalistas, políticos... No primeiro caso, creio que a literatura baiana vai muito bem. A cada dia que passa me deparo com um maior número de jovens escrevendo contos, poemas, romances, cordel, etc. São pessoas já com uma determinada bagagem, razoável conhecimento dos clássicos e mente aberta para o novo. E há escritores não tão jovens, com vários livros publicados, algum reconhecimento nacional, mas com muito ainda a dizer ainda. Falo exclusivamente dos escritores radicados aqui, evidentemente. Já quanto à realidade da literatura na Bahia não sou tão otimista. Não há grandes estímulos para absorção da cultura literária no Estado. Para começar, não temos uma única editora representativa no estado. Uma que agregue nomes, publique, distribua e divulgue a produção contemporânea. É assustador. Pernambuco, nesse quesito, está seguindo o bom exemplo dos estados sulistas. Lá, eles criaram um esquema em que a literatura local é prestigiada e consumida. Basta ver o excelente trabalho que a editora Bagaço está fazendo. E o espaço ideal para a absorção desta literatura é a escola. Para você ter uma idéia, há autor que vendeu mais de 100.000 exemplares de um único livro. O Maurício Mello Júnior é um deles. Então, meu caro, não se pode dizer que literatura não se vende, que só tem leitor quem publica no eixo Rio-São Paulo. A questão é pensar a nossa realidade local. Juntar todos os interessados e criar soluções práticas com esse intuito. Recentemente, li uma entrevista com o Secretário de Cultura em A Tarde, o sr. Márcio Meirelles, e havia vários entrevistadores. Quem era de música, cobrava ações para música. Quem era de artes plásticas, discutia a situação das artes plásticas. Teatro... Contudo, para o meu espanto, ninguém sequer resvalou no problema da literatura. Isto não é revelador? E a literatura deveria estar no cerne da discussão. A palavra atravessa as demais expressões artísticas, quer se queira quer não. Quando ela não está presente na obra, é dela, a palavra, que se utiliza para se aproximar receptor e objeto. O domínio da língua e dos sentidos que a linguagem cria interfere diretamente na sensibilidade e acuidade crítica, na capacidade de percepção do indivíduo. O problema é sério
2-Você mantêm uma revista literária eletrônica chamada VERBO 21. O meio digital gera novos autores e divulga os já existentes. É fácil administrar esta onda estando a frente de uma Revista?

Não há uma intenção definida. Para mim, pouco importa se um autor é conhecido ou desconhecido, se é neófito ou escolado, o que importa, dentro da Verbo21, é o texto e a capacidade de articular idéias. Se você observar, buscamos ocupar um espaço de atuação artística em acordo com o nosso tempo, o que pode significar uma não adesão a determinadas linhas de pensamento hegêmonicas, um questionamento ao poder e ao discurso oficioso. Basta conferir, por exemplo, o material de nossas colunas. Discutimos desde questões ecológicas até subjetivades cambiantes, política e sexualidade, cinema e cotidiano.

3-Em seu conto publicado na IARARANA 13 "Com ou sem chantilly?” Você cita Hemingway algumas vezes. Ele certa feita afirmou que escrevia a lápis para não corromper o estilo. Hoje com o advento do computador, internet, qual a sua opinião a respeito do estilo? Estas "facilidades" deturpam o estilo dum escritor? E você como lida com isso?
O estilo, a meu ver, jamais será prejudicado pelo suporte ou ferramenta. O estilo está relacionado com um burilamento interior. Pode vir de modo "fácil", como a autopsicografia de Pessoa, ou "difícil", como o método de Flaubert. A questão é de autoconhecimento. E jamais cair em maneirismos. Eu não sei dizer qual é o meu "estilo". Deixo a tarefa para os críticos.
4-Vários dos seus contos trazem a temática do jovem, sobretudo do jovem escritor,o que você diria a um escritor iniciante?

Estamos na mesma luta, irmão! (risos)... Quando encontro escritores ainda mais jovens do que eu, mais verdes, digo a eles que leiam muito, estudem muito e escrevam sem parar, pois só a prática leva ao aperfeiçoamento.

5-Qual o autor ou autores você traz como referencial no gênero conto?

Inúmeros. Machado, Lima Barreto, Cortázar, João do Rio, Tchecov, Clarice Lispector, João Antonio e Caio Fernado Abreu são alguns deles.
LIMA TRINDADE,Salvador, Autor e editor da revista eletrônica http://www.verbo21.com.br/. "Supermercado da solidão" (novela) e "Todo o Sol mais o Espírito Santo" (contos). LANÇOU DIA 09 DE OUTUBRO DESTE ANO EM SÃO PAULO O LIRVO:CORAÇÕES BLUES E SERPENTINAS

2 comentários:

SANDRO ORNELLAS disse...

Gostem ou não do que ele escreve, concordem ou não com o que ele diz, o Lima é um cara de idéias. Idéias para a literatura e para a vida.

Renata Belmonte disse...

Lima é um cara bacana e um ótimo escritor. Merece todo o sucesso sempre.