segunda-feira, 7 de maio de 2007

"Perfil" (4)

"Lapso"

[1979: Após vinte anos resolveu ligar para a primeira das paixões, a primeira namorada. Conseguiu o número sem querer, de brincadeira, pelo 102. Lembrava o nome completo da garotinha branquíssima que usava franjinhas e isso tornou tudo mais fácil. Escolheu uma noite quente de dezembro, no horário da novela (ela devia gostar de novelas). Não sentiu o coração tão apertado como na infância, mas estava nervoso. Ela atendeu e lembrou-se de tudo: do nome da escola, da professora Arlina, da padaria onde ela, pequena e risonha, já trabalhava; e com detalhes falou de Helinha e de Roni. Sim, ela lembrou-se até com certo saudosismo na voz, de Roni. O maior rival da época. "Mas quem está falando?", ela, curiosíssima. Ele disse o nome e esperou. Seu devaneio durou o bastante para imaginá-la casada, mãe, bonita e madura, cogitou até mesmo um reencontro, quem sabe o beijo que nunca aconteceu fosse possível a partir dali. “Impossível, não conheço ninguém com esse nome. Sinto muito, deve ter sido engano.” Após os clics, foram cuidar de suas vidas. : 1999]


Tom Correia (1969), natural de Salvador – BA, é autor de “Memorial dos Medíocres”(contos, premiado com o prêmio Braskem de literatura em 2002). Colabora regularmente no site www.verbo21.com.br.

4 comentários:

Anônimo disse...

Por esse conto - "Lapso" - dá para perceber o quanto Tom Correia conhece bem a famosa "balança de pesar palavras" (expressão herbertiana).
Que precisão, Tom! Com poucas palavras você contou uma bela e pungente história. Parabéns!
Um abraço,
Ângela Vilma.

Mayrant Gallo disse...

Como se dizia antigamente: "pauca sed bona". Tom com tônus. E não para tontos.

Carlos Barbosa disse...

Tom Correia, o famoso TC, é um dos meus prosadores contemporâneos preferidos. É um dos melhores, um dos grandes. Ave, Tom! abr. Carlos Barbosa

caverna do escriba disse...

Menos, meus caros, menos. Assim termino por acreditar em palavras tão abertamente generosas e vou ter de pagar promessa pro Frei Galvão... (risos)

Uma das minhas poucas alegrias em Literatura foi o prazer de conhecer figuras tão singulares quanto vocês...

Vida longa ao Entre Aspas.

Grande abraço.