quarta-feira, 11 de julho de 2007

O último vestido da Senhorita B.

Eu não a vi partir. Mas se tivesse que arriscar quandos e porquês, diria que ela me deixou em um abril qualquer. Deve ter aguardado março se despedir e aproveitou para me abandonar junto com ele. Eu, de olhos fechados, ainda soprava com inocência as velinhas do meu bolo de aniversário. Mal sabia que, enquanto estava distraída com novos pedidos, ela aproveitava tal oportunidade para ir embora para sempre. Seus motivos ainda ignoro, por isso, como as outras pessoas sofridas, atribuo culpa ao mundo. Blasfemo a condição humana, me recuso a falar com pessoas desconhecidas. Ajo desta forma na tentativa de chamar sua atenção, preciso de alguma resposta. Certamente, se estivesse presente, ela reprovaria minha postura. Sempre foi dessas enxergam beleza em tudo, costumava dizer que era entre estranhos que se sentia verdadeiramente familiar.
Recentemente, após uma de minhas longas buscas, acabei achando um de seus vestígios. Um velho vestido preto, o único que o tempo não levou de mim. Mas, ao contrário do que se pode pensar, não me senti feliz com tal descoberta. Porque ontem, ao tentar experimentá-lo pela última vez, acabei constatando: ele e suas promessas de felicidade não cabem mais em mim.
Renata Belmonte nasceu em 13/03/82, é advogada e autora de Femininamente (2003) e O que não pode ser (2006). O texto acima foi originalmente publicado no blog “Vestígios da Senhorita B.” (www.vestigiosdasenhoritab.blogspot.com), criado pela própria autora. Confiram.

7 comentários:

Renata Belmonte disse...

Amigos,

Muito obrigada pelo carinho de sempre.
Abraços,
Renata
PS: Georgio, não estou esquecida da sua Iararana! Vou mandar esta semana!

Daniela disse...

Belíssimo texto, Renata! Muito bom mesmo. Todas nós temos vestidos que não cabem mais na gente...

Thiago: ando meio sumida por esses tempos (coisas da vida), mas não me esqueci do Entre Aspas não, viu? E como andas de greve?
Beijo.

Personagem Principal disse...

Finalmente, hein, Srta. Belmonte? Ah, se um dia eu escrever um livro, vc escreve a orelha pra mim? Bjs.

L. Rafael Nolli disse...

Olá, muito bom o texto. Com certeza um convite certeiro para visitar o blog da Renata! Achei a revista muito boa, sobretudo em matéria de entrevistas, que é uma parte de nossas crítica que quase não se vê no mundo dos blogs e das revistas virtuais! Gostei, abraços a todos!

Renata Belmonte disse...

Daniela:
Obrigada pela mensagem.

Personagem:
Mas é claro que escrevo sua orelha. Será um prazer.

Beijos para as duas!

Mayrant Gallo disse...

Já esperamos, com ansiedade, as "Anotações diárias da personagem principal", com orelha da Srta. B. Eu, pelo menos.

Gustavo disse...

tem horas que a felicidade não no cabe mais. passa do ponto, dos números. vira uma camisa velha.

o que nos resta? vestir mesmo assim. e sair por aí, tirando onda. e rindo, na espera do tal juízo final.

vida longa